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quarta-feira, 18 de maio de 2011

Montadoras asiáticas avançam no DF e derrubam preços de carros no mercado
O advogado Raimundo Portela, despreocupado com a dificuldade de peças, optou por um QQ, da Chery: "Para mim, o principal é a relação custo-benefício"

A exemplo do que vem ocorrendo no Brasil, as concessionárias chinesas chegaram para ficar no mercado candango. Dados do Sindicato dos Concessionários e Distribuidores de Veículos do Distrito Federal (Sincodiv-DF) mostram que, em 2010, a participação delas nas vendas totais de veículos no DF foi de 1,25%. No primeiro quadrimestre de 2011, a proporção mais do que dobrou, passando para 2,22%. A entrada de mais um concorrente na praça foi um dos fatores que contribuiu para o incremento.
Em 18 de março último, a JAC Motors inaugurou 46 concessionárias em todo o território nacional, três delas no Distrito Federal. A Chery, outra montadora chinesa, começou com uma loja no Setor de Indústria e Abastecimento (SIA) e, em 7 de maio, abriu uma segunda unidade na Cidade do Automóvel. Além das recém-chegadas, Lifan, Hafei e outras aportaram no mercado local em 2010. Preços equiparáveis aos dos similares nacionais, com o diferencial de que os carros vêm completos — com vidros e trava elétricos; ar-condicionado; air bag; e, não raro, até aparelho de som — são o principal atrativo. Falta de familiaridade com as marcas e eventuais dificuldades na substituição de peças não são empecilho para que os carros da China conquistem os consumidores.

Para Ayrton Fontes, economista da consultoria de varejo automotivo MSantos, a consequência será um acirramento da concorrência. A corrida para não perder clientes começou. A fim de disputar com o Sedan J3, da JAC Motors, que custa R$ 37,9 mil, montadoras e importadoras instaladas no país fizeram ajustes para baixo em até R$ 3 mil nos preços do Ford Fiesta, Peugeot 207 e 307, Citroën C3 e Renault Sandero. Fontes apostam que, com a chegada ao mercado do 1.0 QQ, da Chery, os carros populares — Celta, Ford Ka e Fiat Uno, atualmente vendidos a uma faixa de R$ 23,9 mil — terão que ser os próximos a fazer um alinhamento. Afinal, o carrinho chinês totalmente equipado sai por R$ 22,9 mil.

Concorrência
“O que a gente está prevendo é que vai ter uma disputa muito grande a médio prazo. A grande dúvida é se os veículos 1.0, chamados de carros de entrada no mercado, vão conseguir acompanhar. Os automóveis que concorrem com o J3 têm maior valor agregado. Mas colocar direção hidráulica, freio ABS, painel digital e rádio MP3 em um carro mais popular, vai elevar seu preço a mais de R$ 30 mil”, comenta.

Na China — onde estão as montadoras da JAC, Lifan, Chery e outras — está sediada a produção dos extras que recheiam o veículo. Assim, incrementá-lo é barato. No Brasil, os acessórios são importados. Apenas a Chery anunciou intenção de ter montadora no país. A instalação está prevista para 2013 em Jacareí (SP).

A professora Pollyanna Lereth, 28 anos, acaba de trocar um Celta 1.0 da GM pelo J3 da JAC Motors, com motor 1.4 e todo equipado com adicionais de fábrica. O veículo saiu por R$ 37,9 mil. “Se eu fosse comprar um do mesmo tipo de outra montadora e acrescentasse os adicionais, chegaria a quase R$ 50 mil”, estima.

O advogado Raimundo Nonato Portela, 43 anos, optou pelo QQ, da Chery.“Para mim, o principal é a relação custo-benefício. Vou ter um carro econômico, mas com ar, direção hidráulica, vidro e trava. Não me preocupo com a dificuldade de obter peças.”

Exigências
A importação de veículos ao Brasil está mais complicada desde o último 12 de maio. O Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) passou a exigir que importadoras peçam licença prévia para liberação de guias, processo que antes era automático. De acordo com o MDIC, o aumento de 71% nas importações em abril em relação a março, que causou um desequilíbrio de US$ 1,5 milhão na balança comercial brasileira, foi o que motivou a ação. Entretanto, especula-se que a medida possa ser uma retaliação à Argentina, que vem colocando barreiras às importações de máquinas agrícolas do Brasil.

Campanha agressiva chama a atenção
Apesar de os chineses representarem concorrência adicional, Ricardo Lima, presidente do Sincodiv-DF, faz um discurso a favor da entrada deles no mercado. “São muito bem-vindos. Eles terão o seu público e vão puxar muitos consumidores, que adquirirão seu primeiro carro”, disse. Lima admitiu que “toda entrada de novo concorrente toma espaço”. Para ele, porém, tanto a praça nacional quanto a de Brasília “comportam crescimento”.

As outras montadoras, com ou sem fábrica no Brasil, têm motivo para ficarem atentas. As concessionárias chinesas, principalmente as recém-chegadas, estão investindo pesado em abocanhar clientes. A JAC bancou uma agressiva campanha publicitária, que inclui peças de divulgação com o apresentador de tevê Fausto Silva. A intenção é, até o fim deste ano, conquistar 1% do mercado do país. Já a Chery aposta todas as suas fichas no QQ, anunciado como “o carro mais barato do Brasil”.

Nas lojas do Distrito Federal, a ordem é não perder vendas. Pablo Macharutto, gerente comercial da unidade da Chery no SIA, informa que, para este ano, a orientação é dobrar o volume de vendas frente a 2010. “No começo, houve um pé atrás. Hoje, a marca já é conhecida. Não há dificuldade na reposição de peças, pois temos um estoque muito alto em Salto (SP)”, diz.

Cleyton César, gerente comercial da JAC no SIA, diz que todos os dias são movimentados na unidade, e que a loja bateu recorde em um fim de semana em que foram fechados 25 contratos. “Tradicionalmente, fim de semana vende menos. Mas esse foi excepcional”, relata.

O consultor de varejo automotivo Ayrton Fontes diz que não classificaria a chegada dos chineses ao mercado brasileiro de invasão. “Algo semelhante ocorreu na década de 1990 com as montadoras japonesas, e há alguns anos com as coreanas. A China tem uma produção anual de 18 bilhões de veículos e precisa dar vazão a ela.” Para ele, a decisão do governo federal de monitorar as importações de carros não deve trazer prejuízos significativos às asiáticas. “Pode haver alguma demora na entrada do produto no Brasil, mas a medida é dirigida a todos os países exportadores de veículos.”.

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