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quarta-feira, 29 de junho de 2011

Sete operários já morreram na construção civil do DF e do Entorno neste ano
Setor O: há operários sem cinto de segurança e os que têm o equipamento não estão presos a nenhum caboPara muitos funcionários da construção civil do Distrito Federal, ir trabalhar significa desafiar o perigo. Este ano, de janeiro a junho, seis operários morreram nos canteiros de obras do DF. Se for contabilizada também uma morte ocorrida há oito dias em Valparaíso, cidade do Entorno a 30 quilômetros de Brasília, a quantidade sobe para sete. O número supera os registros de todo o ano de 2010, quando houve seis mortes. A triste estatística pode crescer, já que o mercado da construção está aquecido e, em diversas obras, requisitos essenciais para garantir a segurança dos empregados são descumpridos. Em apenas uma tarde percorrendo a cidade de Ceilândia, a reportagem flagrou cinco locais onde os trabalhadores atuavam em condições inadequadas.

O superintendente regional do Trabalho no DF, Jackson Machado, reconhece que a insegurança no setor é um problema, e atribui a alta na quantidade de acidentes fatais ao crescimento da construção. “A mesma quantidade de gente fiscaliza mais obras”, diz. Segundo ele, 70 auditores vigiam o cumprimento das leis trabalhistas em Brasília e região. Desse total, 19 estão responsáveis para atuar na prevenção de acidentes.

“Temos uma situação de pujança econômica. Pode ser que o boom do setor da construção civil continue, mas pode ser que vire recessão. Não dá para aumentar o efetivo conforme o mercado. O que fazemos é intensificar a ação”, afirma o titular da Superintendência, subordinada ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). Segundo Machado, de janeiro a maio deste ano, o órgão organizou 819 ações de fiscalização, contra 517 no mesmo período de 2010. “Fiscalizamos 30% mais”, diz.

Faltam auditores
Embora o governo federal garanta estar fazendo o possível para evitar tragédias, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil e Mobiliário (STICM) cobra mais eficiência. João Barbosa, primeiro-secretário da entidade, reclama que 270 auditores do trabalho aprovados em concurso de 2010 ainda não foram chamados. “Vamos impetrar ação no Ministério Público pedindo para empossarem esse pessoal.” Ele lembra que, além dos sete trabalhadores mortos, este ano, há um que sofreu uma queda e está em estado grave em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Ontem, João percorreu obras em Ceilândia com o Correio, em busca de irregularidades. Segundo ele é comum membros do sindicato fazerem visitas.

No primeiro canteiro, no Lote 33, Conjunto O da QNN 23, os trabalhadores da obra, tocada pela empresa Civil Engenharia, vestiam roupas normais em lugar de uniformes. Nenhum tinha capacete e um deles usava chinelo de dedo em lugar das botas exigidas. Eles caminhavam pelos pavimentos ainda sem paredes de um futuro prédio comercial, sem que houvesse qualquer estrutura de contenção — os chamados guarda-corpos — e sem cintos de segurança. Um balde pesado era içado ao quarto andar com um gancho improvisado. A reportagem tentou contato com o assessor de imprensa da Civil pelo celular, mas ninguém atendeu.


Trabalhador caminha pela obra sem manter o cinto preso ao cabo de segurança

Sem responsável
Na segunda obra, nos lotes 1 e 2 da Quadra 22 de Ceilândia, não havia empresa responsável. Nela, o andaime não tinha assoalho adequado — os trabalhadores caminhavem sobre frágeis tábuas —, não tinha guarda-corpos e não estava fixado à parede. Os funcionários não usavam capacetes e uniformes e não tinham cintos de segurança.

Na terceira e na quarta obras, nas quadras 2 e 6 de uma área do Programa de Desenvolvimento Econômico Integrado e Sustentável (Pró-DF), novamente os trabalhadores não usavam proteção adequada — capacete e cintos —, e os andaimes eram improvisados. Não havia empresas responsáveis.

No quinto local, um canteiro na Quadra 12, Área Especial, Setor O, onde está sendo erguido um grande condomínio residencial pela Borges Landeiro, trabalhadores caminhavam no alto de uma laje sem cinto de segurança, ou com cintos desconectados do cabo-guia. A empresa se defendeu em nota, afirmando que “irá investigar os motivos que levaram o colaborador a não utilizar o cinto de segurança”.

O presidente da Comissão de Política e Relações Trabalhistas do Sindicato da Indústria da Construção Civil do DF, Izídio Santos, afirma que a grande quantidade de obras na ilegalidade e de trabalhadores informais no ramo da construção civil é uma das principais razões de acidentes. (Colaborou Antônio Temóteo)

Exigência legal
A Norma Regulamentadora n°18 (NR 18) estabelece diretrizes que garantem a segurança dos trabalhadores da indústria da construção civil. Ela é embasada no artigo 200 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT). Foi editada em 1978, sob a forma de portaria, e desde então, teve vários acréscimos e alterações. Entre as várias determinações, ela estabelece que aberturas no piso das obras — vãos para elevadores, por exemplo — devem ter fechamento provisório resistente; que todos os equipamentos de segurança e transporte devem ser utilizados por trabalhadores qualificados; e que é proibido o trabalho em andaime sem a proteção adequada.

Quedas e soterramentos
De acordo com a Superintendência Regional do Trabalho do Distrito Federal, os acidentes mais comuns em canteiros de obras são os soterramentos e as quedas. “A queda em poços de elevador ou de andaimes e os soterramentos respondem por um volume de 70% a 80% do total. Dentre todas essas ocorrências, o soterramento é a mais comum. Geralmente, está relacionado à falta de experiência ou capacitação de quem está trabalhando em uma vala. Às vezes, o operário ou responsável não sabe avaliar se é necessário um encosto. Mas também pode acontecer de estar chovendo ou de o terreno estar arenoso”, explica o superintendente Jackson Machado. O Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Civil e Mobiliário (STICM) elenca os mesmos acidentes como os mais frequentes, e acrescenta os que envolvem choque elétrico.

Memória
21 de junho de 2011
Um operário morreu soterrado em Valparaíso, em uma obra no setor de chácaras Anhanguera C, Avenida Minas Gerais. Ele estava cavando uma vala de dois metros de profundidade quando aconteceu o acidente. Quatro equipes do Corpo de Bombeiros foram enviadas ao local, ainda na expectativa de resgatar a vítima com vida, mas pouco tempo depois de iniciado os trabalhos, o homem foi localizado já sem vida. De acordo com informações preliminares, o acidente pode ter sido causado pela falta de escoramento da obra.

13 de junho de 2011
Um operário foi soterrado em uma obra no SIA, trecho 7. Paulo do Amaral Assunção, 66 anos, estava dentro de um tubulão, a 13 metros de profundidade, quando um bloco de terra desabou sobre ele. Um filho de Paulo também trabalhava na obra e foi o responsável por acionar o Corpo de Bombeiros. Ele foi retirado seis horas depois do acidente, já sem vida.

31 de maio de 2011
O servente João Alves da Cruz Júnior caiu do quarto andar da obra onde trabalhava, em Águas Claras, enquanto montava um andaime. Ouvidos informalmente, dois funcionários disseram que João estaria usando os equipamentos de segurança necessários

15 de abril de 2011
Um homem morreu soterrado em uma obra na Quadra 1 do Setor Hoteleiro Norte. Ivaldo Bispo dos Santos, 61 anos, trabalhava na escavação de buracos para sustentação do prédio, quando um caminhão começou a despejar o concreto. O operário estava a cerca de sete metros de profundidade, em um buraco de 11 metros. Ivaldo foi retirado sem vida do local.

4 de abril de 2011
Manoel Diniz dos Santos, 27 anos, morreu após cair do telhado da obra da futura sede da Bimbo Panificação, na BR-040, em Santa Maria. Ele trabalhava para a Zipfer, que presta serviços especializados para obras de Brasília. Manoel caiu de uma altura de 12 metros e morreu na hora.

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